Atormentando meus pais desde que cheguei, finalmente fui prestigiar a exposição da minha diva mor.
Me surpreendi. Esperava algo mais 'vai lá, vê quem é essa diaba e dá o pé'. Tudo muito organizado, limpo e charmozinho. Clarice ficou comum, infelizmente. Essa geração que é pré-adolescente aos oito anos de idade, e tem acesso a internet e a sites de relacionamentos (oi orkut), usam seus fragmentos mesmo sem prestar os créditos. Poxa, nem usam aspas! Não é essa a questão. Se eu vi e gostei de uma frase, coloco onde quiser. Mas cara, pelo menos as aspas. A verdade é que eu tenho ciúmes. E a geraçãozinha precoce estava nesta exposição. Eram alunos de uma escola pública do Paranoá. Eu nem liguei de ficarem me olhando torto quando eu estava quase aos prantos. Clarice é como se fosse um órgão vital, entenda. Tudo se encaixa lentamente. Ela escrevia o que eu sinto, o que eu vivo.
O vídeo já vi inúmeras vezes. Sabia o que ia falar, como iria segurar o cigarro, sabia que iria falar com carinho quando descobriu que sua mãe também escrevia...
Meus olhos brilhavam quando eu abria aquelas gavetas com os manuscritos, as fotos... Foi como se ela estivesse na porta de seu quarto me observando enquanto mexia em suas coisas. E não brigaria comigo, apenas me daria um conselho: não fumar na cama, pois já tinha acontecido algo horrível.
Eu poderia ser a gafanhota. Eu poderia ser qualquer coisa nesse mundo que não seria nenhum pedacinho dela, embora sempre exista um pedaço de Clarice em mim.